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4 days ago
fuck reblog
(via / originally)
“Lembro-me de tudo, inclusive que chovia naquela noite, o clarear do céu a cada novo relâmpago que o cortava, o barulho estrondoso das trovoadas, o balançar das árvores por causa da forte ventania. Lembro-me de encolher-me toda antes de ganhar coragem e sair de casa. Havia marcado com você, às vinte e uma horas por debaixo da ponte que tinha como vista aquele rio, as luzes da cidade.Pensei em te ligar e marcar um outro dia para visitar-te, mas lembrei-me do teu sorriso e de como queria vê-lo em teus lábios outra vez. Estava quase na hora, precisava apressar-me, caso quisesse estar lá na hora marcada. Segui meu rumo e pelo caminho, que ainda era longo – mas que em quinze minutos eu o trilhava a pé – mesclado ao rugir da tempestade eu ouvia o barulho de sirenes, via luzes incandescentes aceleradas estrada fora, e ao fundo, bem ao fundo parecia-me escutar uma multidão.
Não sei o que faziam, e para lhe ser sincera, não me interessava, o meu único desejo naquele exato momento era encontrar-te. A pressa e ansiedade me faziam andar cada vez mais rápido, mas cada passo parecia-me distanciar de ti. E eu não entendia bem o porquê! Continuei galgando urgentemente. Todo aquele reboliço pelas artérias da metrópole tinham um motivo e ele estava perto de mim, perto do local onde combinamos nos ver. Existia uma multidão cercada de paramédicos e policiais. De repente meu coração acelerou, meus olhos esbugalharam tentando definir as sombras daquele aparato todo. Um mau presságio me consumiu, fiquei desnorteada sem razão aparente. E só me lembro de correr.Recordo-me de ter olhado algumas vezes para trás, mas o desespero não me deixava parar e eu só ansiava saber o que estava ocorrendo ali. Continuei a correr, mas fui brutalmente estancada esbarrando-me em alguém. Não conseguia enxergar nada, lembro-me somente de inalar um aroma conhecido, e depois tudo escureceu.Desmaiei por alguns segundos a assim que tomei consciência tinha um senhor segurando a minha mão e repetindo-se em questionamentos – “Estás bem moça?” – não consegui responder-lhe, levantei-me num ápice, furei o amontoado de pessoas e por fim vi o acidente. Uma mancha de sangue no chão, um corpo caído sobre a maca, as vozes misturadas, tudo me enlouquecia de um jeito estranho. Quase sem perceber soltei um grito, chamei você, vi uma sombra dirigir-se a mim naquela confusão, pedindo-me calma. Eu sabia que você estava por ali, podia sentir teu cheiro mas não te encontrar estava a deixar-me desorientada. – “Que medo horrível é esse de te perder” – foi a única frase que balbuciei em meio ao choro sufocado que já tomava conta de mim sem se verter.Continuei a procurar-te, mas não te achava. Tentei invadir o bloqueio policial para ver se eras tu que estavas ali prostrado, sangrando, mas não me deixaram passar. Não consegui conter minhas lágrimas por muito tempo, o desespero me envolveu. Não suportava a ideia de perder-te, não assim, não agora, não hoje, não sem ver teu sorriso mais uma vez.Voltei a gritar até alguém prestar atenção. As pessoas me encaravam com olhar de espanto e desdém, provavelmente me achando uma doida qualquer. Mas não entendiam e nem eu podia ou devia contar-lhes. Finalmente alguém se interessou pelo meu grito eloquente e me travou a voz – “Moça, o que está acontecendo, você está bem?!” – de novo a mesma pergunta do velhinho de antes. Não sabia responder mas vociferei – “Só preciso saber quem está sob aquela maca moço, só isso.” – Assim que percebeu minha aflição foi ver o nome do paciente. Demorou pouco mais de 2 minutos mas na minha cabeça, passaram-se horas a fio.Eis que então ele retornou, quase que em súplica perguntei-lhe – “Quem está ali? Diga-me, por favor!” – ele me olhava espantado e quase que sem entender nada, mas me respondeu – “Calma moça, eu trouxe o documento dele para que possa ver e reconhece-lo ou não.” – Senti meu corpo sobressaltar-se, as lágrimas escorrerem sob minha face mais uma vez e atropelando as que ainda nem tinham secado. Me negava a acreditar, não podia ser você.Aterrorizada, a dor estava espelhada em meu rosto. O medo, a revolta, a raiva, o nojo da vida, percorriam meu corpo penetrando de rancor cada veia minha. Minha cabeça não estava capaz de concentrar-se em mais nada senão naquela cena horrenda que eu era obrigada a presenciar. O enfermeiro tocou meu braço pedindo a devolução do documento, questionando-me se conhecia a vítima, eu anui em gesto afirmativo e só quando ele lamentou, dando-me os pêsames e sugerindo que adentra-se a barreira envolta daquele cenário, para poder tratar das formalidades é que minha ficha caiu e a tua morte precoce se fez presente. Não podia ter sido assim, não devia ter sido assim. Eu não conseguia acreditar. Foste cedo demais e eu cheguei tarde demais. Tudo no tempo errado e nem tempo sobrou para dizer que ainda te amo. A vida não é justa e nós somos cruéis. Sobrou-me a falta, a saudade. Quiçá, você virou um anjo e eu somente um vegetal.
MariCosta e Sheila